quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Por Detrás de Seus Olhos - A Sangue Frio

HS1of4 300 De repente, "a autora" entra na sala. Ela me convida a ler, é um tipo de sedução, uma batalha, e eu não consigo resistir. Ela me arrasta para uma mente, para os olhos de outra pessoa. Eu posso perceber seus pés e seus sapatos, e olhar seu mundo. Eu tento lutar para me manter! Eu tenho minhas crenças e preconceitos, minha visão arrogante do mundo. Eu penso que estou correto. Mas ela quer ir bem mais longe, e eu não posso resistir. Há a ternura e inocência do começo dele, então o sofrimento, a injustiça. Eu fui capturado na rede. "A autora"  me transformou em seu personagem, tornando-me capaz de olhar o mundo "por detrás de seus olhos". Há este irresistível impulso de ir como ele em direção a estes atos impensáveis. Isto é o que eu estava procurando: a improvável experiência de "o leitor".

A Sangue Frio de Truman Capote não pode ser reduzido a um "livro de assassinato". É um livro sobre a vida, invocada de volta das cinzas por uma descrição magistral da rotina diária de Holcomb. Mas é também uma porta que bate na cara, encerrando a trilha da vida sem aviso prévio. Sussurrando em seu ouvido, a morte não tem planos.

Capote conduz este livro com competência. Ele me pôs por detrás de diversos olhos, começando pelos habitantes da tranquila Holcomb, sua rotina e expectativas, seus sofrimentos e alegrias. O mundo é Holcomb. Eu posso senti-los, eu posso entendê-los e viver suas vidas. Mas há também as vidas de Dick e Perry, os assassinos. Paulatinamente Capote o leva para as suas mentes e visões de mundo, desde o princípio. Ele projetou a estória como um encontro de vidas e a explosão que transborda para todos os lados, a família, os conterrâneos, os forasteiros. Um prisma de centenas de estórias.

O horror do encontro entre mundos e a saga para encontrar uma explicação, uma consolação, um motivo para esquecer, perdoar e retornar à vida.

domingo, 26 de outubro de 2014

Contos de Lugares Distantes

“Quando eu era criança, um grande búfalo do rio vivia no terreno baldio no fim da nossa rua, aquele que ninguém cortava a grama.”

Um livro de estórias improváveis e ilustrações enigmáticas. Em "Contos de Lugares Distantes", Shaun Tan constrói um mundo fantástico sempre provocando a sua imaginação. Ele te convida a compartilhar estórias não triviais, onde você sente a narrativa entrelaçada com as imagens etéreas, uma fusão de experiências!

Trata-se de um livro infantil não usual. A maioria deste tipo de livro subestima a inteligência e gosto das crianças. Não este.

Shaun Tan partiu de uma coleção pessoal de desenhos informais que ele fez no estilo "margem de página". Ele combina várias técnicas artísticas no mesmo livro. Suas estórias abordam assuntos humanos profundos em um estilo fantasia. Lugares fantásticos, passagens inesperadas e criaturas estranhas te esperam neste livro (não somente) infantil.


sábado, 28 de junho de 2014

O Pássaro Madrugador

the early birds por Angelo DeSantis

Diz uma frase popular em inglês: "the early bird gets the worm" (o pássaro madrugador pega a minhoca). Alguns atribuem a Robert A. Heinlein o complemento: "the early worm deserves the bird" (a minhoca madrugadora merece o pássaro).

Minha contribuição para a filosofia: antes de madrugar, é bom que você saiba em que posição da cadeia alimentar você está.

domingo, 1 de junho de 2014

A Chegada

A Chegada por Shaun Tan
Hoje eu descobri Shaun Tan no livro A Chegada. Um artista que é capaz de combinar o fantástico com o corriqueiro em ilustrações inspiradoras e sensíveis. Seu livro me fez lembrar a técnica singular de Moebius. Em um livro feito de imagens sem falas, Shaun Tan lhe faz viver a experiência de um imigrante que se sente perdido. A terra fantástica produz uma percepção sem paralelos de se estar em um mundo estrangeiro, sem referências e mergulhado em uma língua desconhecida.
Voyage D’Hermes por Moebius

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Qualquer Aparência

Não seria a ficção uma excelente ferramenta para experimentarmos aquilo que não se pode testar em um laboratório no mundo real? Esta foi a pergunta que me fiz, quando recentemente reli Metamorfose. Não é só o estilo marcante de Kafka trafegando entre o real e o absurdo (ainda que só por isso valha a pena), mas pela sua capacidade de usar o imaginário como instrumento para nos fazer pensar no real; no mais concreto real.

Gregor Samsa acorda uma manhã como um monstruoso inseto. Mas se você não estiver preparado, isto envolve muito mais sobre o real do que a maioria dos documentários que eu já assisti falando sobre pessoas.

Na Ciência, é comum que se tente isolar uma variável para testes. Por exemplo, se você quer saber se casca de ovo ajuda o crescimento das samambaias, poderá plantar muitas samambaias em condições iguais (ou pelo menos muito próximas) e escolher um grupo para usar casca de ovo e outro não. Neste caso, você estará “isolando” a variável casca de ovo e poderá acompanhar como se comportam os dois grupos.

Mas como faríamos se a pergunta fosse: quanto vale a essência de uma pessoa? Dá para isolar esta variável? Vale transformar Samsa em um repugnante inseto em um estalo de dedo? Sua essência continua a mesma; ele segue pensando e tentando agir como antes. Sua família sabe que aquele é Gregor Samsa.

Reli o livro. Queria reencontrar a pergunta que me fiz a primeira vez: será que nos comportaríamos assim? Confesso, há tempos em que temo que sim. Mas talvez seja possível transcender o esperado. Com algo intangível, talvez inventado, chamado amor. Invenção estranha.

Se decidir ler ou reler a "pequena estória" de Kafka, pense que ele continua o mesmo, Gregor, e todos sabem disso. Mas talvez Kafka nos ponha diante da maior pergunta que não queremos responder: é verdade que amamos a essência além de qualquer aparência?

segunda-feira, 3 de março de 2014

Fugitive beauté

À une passante em francês/português e referências da imagem
“Un éclair… puis la nuit ! — Fugitive beauté”

A primeira vez que ouvi À une passante sendo narrado eu mal começava a tentar aprender francês. Não era capaz de entender as palavras, mas havia alguma coisa na melodia das palavras que me capturou.

Tentei apelar para traduções, mas foi inútil. Elas capturavam parte do sentido, mas não a cadência e a melodia. A poesia não acontecia em língua estrangeira. Decidi escutar a narração dezenas de vezes, até que meus ouvidos fossem capazes de entrar na angústia e contemplação de Baudelaire, ao dizer Fugitive beauté.

Em italiano se diz “traduttore, traditore” (tradutor, traidor), para expressar a impossibilidade de se traduzir. Sinto muito, mas se você quiser acompanhar Baudelaire no paraíso inalcançável que repentinamente cruza a sua rua, terá que fazê-lo em francês.

Dou minha contribuição colocando o poema À une passante (A uma passante) na minha página e esta referência para uma excelente narração em francês feita por Camille Chevalier-Karfis.

Ok, ok, eu sou um traidor! Eu fiz uma tradução do poema para o português com minha mãe (a maior parte ela). Queria atrair possíveis leitores e não gostei das traduções que encontrei. De qualquer modo, a tradução tenta se aproximar do sentido, sacrificando a cadência e melodia do francês. A tradução, portanto, não tem a intenção de substituir a leitura da versão em francês, mas só dar um gostinho inicial (pensou que escaparia fácil!).

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Desafiando o Real

Arte de rua de Banksy
“[…] eu não sabia que era permitido a alguém escrever coisas como aquela.”

Eu não entendo muito de arte, principalmente em se tratando de arte contemporânea. Mas eu gosto. Principalmente da contemporânea. Este ano eu visitei uma exposição especial com uma ampla coleção de obras de Salvador Dalí no Centro Pompidou. Seguindo sua cronologia e o modo como ele progressivamente dobra o real, eu pensei: ele quer quebrar alguma coisa. Gosto de pensar sobre arte como uma tentativa de quebrar alguma coisa. Não como atirar uma pedra em uma janela, mas como dobrar o mundo da janela.

Não é sempre fácil distinguir a rebelião pura da arte. Isto foi o que pensei a primeira vez que vi uma arte de rua de Banksy. É impressionante como ele atenta contra o real em uma perspectiva diferente. O real como o modo que vemos e organizamos a sociedade, nossas vidas, as leis, o certo e o errado. Sua rebelião fala conosco em sua arte. É uma autentica intervenção social, que nos desafia.

Onde podemos ir deste modo? Eu ofereço uma síntese, que tomo emprestada de Garcia Marquez:

“Eu voltei à pensão em que estava hospedado e comecei a ler A Metamorfose. Na primeira linha lê-se, 'Quando Gregor Samsa acordou aquela manhã de sonhos inquietos, ele se encontrou transformado em sua cama em um inseto gigante...' Quando eu li a linha eu pensei comigo mesmo que eu não sabia que era permitido a alguém escrever coisas como aquela. Se eu soubesse, eu teria começado a escrever há muito tempo.”, Gabriel Garcia Marquez em entrevista, The Paris Review, 1981