sábado, 28 de junho de 2014

O Pássaro Madrugador

the early birds por Angelo DeSantis

Diz uma frase popular em inglês: "the early bird gets the worm" (o pássaro madrugador pega a minhoca). Alguns atribuem a Robert A. Heinlein o complemento: "the early worm deserves the bird" (a minhoca madrugadora merece o pássaro).

Minha contribuição para a filosofia: antes de madrugar, é bom que você saiba em que posição da cadeia alimentar você está.

domingo, 1 de junho de 2014

A Chegada

A Chegada por Shaun Tan
Hoje eu descobri Shaun Tan no livro A Chegada. Um artista que é capaz de combinar o fantástico com o corriqueiro em ilustrações inspiradoras e sensíveis. Seu livro me fez lembrar a técnica singular de Moebius. Em um livro feito de imagens sem falas, Shaun Tan lhe faz viver a experiência de um imigrante que se sente perdido. A terra fantástica produz uma percepção sem paralelos de se estar em um mundo estrangeiro, sem referências e mergulhado em uma língua desconhecida.
Voyage D’Hermes por Moebius

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Qualquer Aparência

Não seria a ficção uma excelente ferramenta para experimentarmos aquilo que não se pode testar em um laboratório no mundo real? Esta foi a pergunta que me fiz, quando recentemente reli Metamorfose. Não é só o estilo marcante de Kafka trafegando entre o real e o absurdo (ainda que só por isso valha a pena), mas pela sua capacidade de usar o imaginário como instrumento para nos fazer pensar no real; no mais concreto real.

Gregor Samsa acorda uma manhã como um monstruoso inseto. Mas se você não estiver preparado, isto envolve muito mais sobre o real do que a maioria dos documentários que eu já assisti falando sobre pessoas.

Na Ciência, é comum que se tente isolar uma variável para testes. Por exemplo, se você quer saber se casca de ovo ajuda o crescimento das samambaias, poderá plantar muitas samambaias em condições iguais (ou pelo menos muito próximas) e escolher um grupo para usar casca de ovo e outro não. Neste caso, você estará “isolando” a variável casca de ovo e poderá acompanhar como se comportam os dois grupos.

Mas como faríamos se a pergunta fosse: quanto vale a essência de uma pessoa? Dá para isolar esta variável? Vale transformar Samsa em um repugnante inseto em um estalo de dedo? Sua essência continua a mesma; ele segue pensando e tentando agir como antes. Sua família sabe que aquele é Gregor Samsa.

Reli o livro. Queria reencontrar a pergunta que me fiz a primeira vez: será que nos comportaríamos assim? Confesso, há tempos em que temo que sim. Mas talvez seja possível transcender o esperado. Com algo intangível, talvez inventado, chamado amor. Invenção estranha.

Se decidir ler ou reler a "pequena estória" de Kafka, pense que ele continua o mesmo, Gregor, e todos sabem disso. Mas talvez Kafka nos ponha diante da maior pergunta que não queremos responder: é verdade que amamos a essência além de qualquer aparência?

segunda-feira, 3 de março de 2014

Fugitive beauté

À une passante em francês/português e referências da imagem
“Un éclair… puis la nuit ! — Fugitive beauté”

A primeira vez que ouvi À une passante sendo narrado eu mal começava a tentar aprender francês. Não era capaz de entender as palavras, mas havia alguma coisa na melodia das palavras que me capturou.

Tentei apelar para traduções, mas foi inútil. Elas capturavam parte do sentido, mas não a cadência e a melodia. A poesia não acontecia em língua estrangeira. Decidi escutar a narração dezenas de vezes, até que meus ouvidos fossem capazes de entrar na angústia e contemplação de Baudelaire, ao dizer Fugitive beauté.

Em italiano se diz “traduttore, traditore” (tradutor, traidor), para expressar a impossibilidade de se traduzir. Sinto muito, mas se você quiser acompanhar Baudelaire no paraíso inalcançável que repentinamente cruza a sua rua, terá que fazê-lo em francês.

Dou minha contribuição colocando o poema À une passante (A uma passante) na minha página e esta referência para uma excelente narração em francês feita por Camille Chevalier-Karfis.

Ok, ok, eu sou um traidor! Eu fiz uma tradução do poema para o português com minha mãe (a maior parte ela). Queria atrair possíveis leitores e não gostei das traduções que encontrei. De qualquer modo, a tradução tenta se aproximar do sentido, sacrificando a cadência e melodia do francês. A tradução, portanto, não tem a intenção de substituir a leitura da versão em francês, mas só dar um gostinho inicial (pensou que escaparia fácil!).

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Desafiando o Real

Arte de rua de Banksy
“[…] eu não sabia que era permitido a alguém escrever coisas como aquela.”

Eu não entendo muito de arte, principalmente em se tratando de arte contemporânea. Mas eu gosto. Principalmente da contemporânea. Este ano eu visitei uma exposição especial com uma ampla coleção de obras de Salvador Dalí no Centro Pompidou. Seguindo sua cronologia e o modo como ele progressivamente dobra o real, eu pensei: ele quer quebrar alguma coisa. Gosto de pensar sobre arte como uma tentativa de quebrar alguma coisa. Não como atirar uma pedra em uma janela, mas como dobrar o mundo da janela.

Não é sempre fácil distinguir a rebelião pura da arte. Isto foi o que pensei a primeira vez que vi uma arte de rua de Banksy. É impressionante como ele atenta contra o real em uma perspectiva diferente. O real como o modo que vemos e organizamos a sociedade, nossas vidas, as leis, o certo e o errado. Sua rebelião fala conosco em sua arte. É uma autentica intervenção social, que nos desafia.

Onde podemos ir deste modo? Eu ofereço uma síntese, que tomo emprestada de Garcia Marquez:

“Eu voltei à pensão em que estava hospedado e comecei a ler A Metamorfose. Na primeira linha lê-se, 'Quando Gregor Samsa acordou aquela manhã de sonhos inquietos, ele se encontrou transformado em sua cama em um inseto gigante...' Quando eu li a linha eu pensei comigo mesmo que eu não sabia que era permitido a alguém escrever coisas como aquela. Se eu soubesse, eu teria começado a escrever há muito tempo.”, Gabriel Garcia Marquez em entrevista, The Paris Review, 1981

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Antes do Pôr do Sol

Viramos abóbora? Reflexões sobre o paraíso passado.

(recomendo que só leia este blog depois de assistir o filme anterior a este, Antes do Amanhecer, pois o segundo filme revela surpresas que você não devia saber ao assistir o primeiro)

Nove anos depois de nos dar um relance do paraíso no filme Antes do Amanhecer (Before Sunrise), os autores e diretor resolvem contar: ... e como seria nove anos depois. Este é o filme Antes do Pôr-do-sol (Before Sunset). Tanto no filme quanto no mundo real (gravação do filme) se passaram nove anos. Portanto, os personagens envelheceram de fato nove anos e amadureceram nove anos.

A música de abertura, An Ocean Apart, é uma espécie de síntese do que nos aguarda:
“You promised to stay in touch when we're apart
You promised before I left that you'll always love me.
Time goes by, people cry, everything goes too fast.”
Nove anos depois daquele encontro, Jesse está em um dia de autógrafos na legendária livraria Shakespeare and Company em Paris. Ele remonta no livro aquela experiência que ficou marcada como um paraíso inalcançável, já que ele não havia encontrado mais aquela garota e não sabia como encontrá-la. Não pude deixar de ficar comovido, quando Céline simplesmente aparece.

O filme cria uma estória e um cenário perfeitos para confrontar dois universos. De um lado, está um paraíso passado. Uma lembrança de uma paixão intensa. Do outro, está a crua realidade vivida em nove anos. As escolhas, as crenças, os novos ideais, a perplexidade perante o mundo.

Isto acontece no mesmo estilo do filme anterior. Um diálogo pelas ruas de Paris, que parte de uma segura conversa sobre trivialidades -- o livro, o trabalho -- e vai se tornando profunda e intensa. Afloram os sentimentos e as frustrações. É como se cada um deles estivesse conversando com uma imagem do outro que ficou há 9 anos atrás. O presente concreto cobra a conta das promessas feitas no passado.

Por trás de um diálogo casual o casal envereda por um questionamento profundo sobre a paixão e o amor. O que sobrou afinal? Quão longe aquele universo paralelo gerado por aquela paixão pode ir, rompendo os desafios do cotidiano e a descoberta dos limites do outro?

Prepare-se para assistir um filme intenso, honesto e belo ao seu modo. Com um final que me surpreendeu!

domingo, 28 de outubro de 2012

Antes do Amanhecer

"Mas então chega a manhã, e viramos abóboras, certo?"
Antes do Amanhecer

Quando penso na diferença entre o cinema e o mundo real, me vem em mente os filmes românticos. Até que ponto estes filmes refletem (mesmo que ampliando) verdadeiros romances? Ou é exatamente o contrário, criam uma mitologia na qual os romances tentam se espelhar. Do que você lembra sobre sua história (ou histórias) romântica? Se parece com isso(?):
Você corre desesperado para a estação achando que não fará em tempo de encontrá-la e que tudo estará terminado. Ela está partindo desiludida, determinada a não vê-lo nunca mais. Então vocês se encontram e você declara seu amor. Tudo fica magicamente bem. Vocês se beijam.
Não é que não haja momentos marcantes e eventualmente heroicos. Também não quer dizer que eu não me emocione (repetidas vezes) com cenas como esta, por mais previsíveis que sejam. Mas ao assistir o filme Antes do Amanhecer (Before Sunrise) eu pensei: é exatamente isso!

Os caminhos de Jesse e Céline se cruzam em um trem. Ele está indo para Viena e ela para Paris. Eles decidem descer e passar o dia juntos em Viena, antes que Jesse viaje no dia seguinte de volta para os Estados Unidos. Então você acompanha a dança do amor. Aquela vontade de se conhecer que não termina. Ora se aproximam, ora se estranham. Tudo corre na delicadeza dos diálogos pelas ruas de Viena. Por serem estranhos um ao outro, eles ganham uma liberdade de abrir-se sem preconceitos. Criam a intimidade de um mundo paralelo, em que estão só os dois. A cigana e o poeta cruzam seu caminho, mas parecem fazer parte do cenário.

Os diálogos são o aspecto marcante do filme. Tanto pelo esforço dos autores/diretor em aproximar-nos das falas de dois jovens de vinte e poucos anos -- com toda a sua ingenuidade frente às ideologias e impulsividade em abraçá-las/rejeitá-las -- quanto pela excelente interpretação dos atores. O filme dispensa cenas espetaculares para nos fazer presenciar as sutilezas de uma paixão arrebatadora:
"É como se nosso tempo juntos fosse só nosso.
É nossa própria criação.
Deve ser como se eu estivesse no seu sonho, e você no meu.
E o mais legal é que toda essa noite... todo o nosso tempo juntos, não devia realmente estar acontecendo.
É, eu sei. Talvez seja por isso que parece tão de outro mundo.
Mas então chega a manhã, e viramos abóboras, certo?"
(diálogo entre Jesse e Céline em Antes do Amanhecer)
Não vou contar o final, mas surpreende como o resto do filme.

Nove anos depois o mesmo diretor lança o filme Antes do Pôr-do-sol (Before Sunset), com Jesse e Céline nove anos depois pelas ruas de Paris. Ele é tão profundo e talvez mais surpreendente que o primeiro. Pelo diálogo do casal os autores nos fazem olhar para trás e nos mergulham em uma reflexão. A força da paixão e do amor se lançam contra as paredes do mundo real. Não lhes darei mais detalhes para não estragar a surpresa. Quem sabe um dia eu escreva um post sobre este segundo episódio =)